A Carretera Austral é uma incrível estrada chilena que liga a região de Los Lagos à região de Aysén, na zona sul do país, e corta uma das regiões mais isoladas e inóspitas do Chile, a zona rural da Patagônia.

A Carretera Austral tem 1.240 quilômetros e conecta Puerto Montt – porta de entrada da Patagônia chilena – à Villa O’Higgins, um pequeno povoado de pouco mais de 600 habitantes em uma das regiões mais inabitadas do país.

A estrada é mundialmente famosa! É vista como um desafio a se superar por muitos turistas que passam pela gelada região. O que não falta são viajantes a percorrendo, seja de carro, de moto, de bicicleta, ou até mesmo na base da boa e velha carona. Encontramos um pouco de cada um desses tipos em nossa passagem por lá!

O que torna o caminho tão incrível é, sem dúvida, a beleza da natureza da região. Chega a ser indescritível em alguns momentos. Por muitas vezes (muitas vezes mesmo!) nós parávamos para tirar fotos e admirar a grandeza do lugar onde estávamos, sem entender como podia haver uma estrada ali, no meio do absoluto nada!

Nos mais de 1.200 km de Carretera Austral, passamos por muitos trechos onde entramos em contato com a natureza na sua forma mais pura, sem nenhuma intervenção humana.

Passamos por pontos em que nosso carro ficava a poucos metros de um enorme penhasco de um lado e uma enorme montanha do outro, cruzamos inúmeras pontes de madeira (torcendo para elas aguentarem o peso do Charlie!) estrategicamente colocadas no meio do nada, contornamos o segundo maior lago da América do Sul, o lago General Carrera, dormimos em uma vila minúscula que tinha 3 ou 4 ruas e somente 200 habitantes e pudemos acompanhar de perto, por quase 10 dias, como é viver em uma das zonas mais isoladas da América.

Foram dias realmente incríveis!

Carretera Austral
Carretera Austral
Carretera Austral

Mas nem tudo são flores, certo?

A estrada é em sua maior parte de rípio, em muitos trechos muito ruins. Em vários momentos do caminho você terá que escolher se cai em 3 ou 4 buracos, não tem jeito. Pegamos chuva em vários trechos da Carretera. Acredito que isso tenha piorado ainda mais a situação das vias. Em épocas de seca a estrada deve ficar melhor!

Além disso, é importante deixar claro que em pouquíssimos momentos você irá ultrapassar os 50 km/h. Portanto, percorrer “apenas” 200 km em um dia pode significar umas boas horas de estrada.

É preciso ter paciência, muita atenção e abusar de direção defensiva. Cruzamos com vários motoristas loucos pelo caminho (inclusive de caminhão).

O caminho é realmente maravilhoso, mas dirigir por tantos km em uma estrada como a Carretera Austral pode, por incrível que pareça, ser estressante e, de certa forma, perigoso. Portanto, muita atenção!

Carretera Austral
Carretera Austral
Carretera Austral

Para ajudar futuros viajantes, resolvemos criar o guia abaixo para quem quiser se aventurar pela incrível Carretera Austral!

COMO CHEGAR?

O principal acesso, para quem vem do norte do Chile, é por Puerto Montt, onde a Carretera Austral começa.

Para quem vem do sul (como foi o nosso caso), o principal acesso é por Chile Chico, uma pequena cidade na fronteira do Chile com a Argentina.

De Chile Chico, pegue a CH-265 (mais abaixo falaremos desse trecho maravilhoso da estrada) e dirija 115 km até cruzar com a Carretera Austral.

Nesse ponto você tem 3 opções:

a) Siga para o sul, passando por Puerto Bertrand, Cochrane e Villa O’Higgins, onde termina a Carretera Austral;

b) Siga para o norte, passando por Puerto Río Tranquilo (e as famosas Capelas de Mármore – veja aqui nosso relato sobre esse incrível lugar), Villa Cerro Castilho, Coihaique, Puyhuapi, Chaitén e, finalmente, Puerto Montt;

c) Faça a combinação de A + B e percorra toda a Carretera Austral 😛

QUANDO IR?

Essa é uma pergunta de difícil resposta, pois depende do que o viajante está buscando.

Nós fomos em Junho e pegamos poucos dias de sol. Pelo contrário, enfrentamos bastante frio e chuva. Para quem quer um clima mais agradável, o ideal é passar pela região entre a Primavera e o Verão, de outubro a março. É o período ideal para aproveitar a natureza do local, acampar e fazer passeios ao ar livre.

Contudo, como nas demais regiões da Patagônia, o clima é bastante instável. No mesmo dia pode haver chuva, sol, ventos e frio… É bom estar sempre preparado, com roupas adequadas e, claro, sempre olhar a previsão do tempo antes de cair na estrada!

QUANTOS DIAS?

Considerando a extensão total da estrada e o seu estado de conservação, no mínimo 10 dias. É um tempo razoável para percorrer pequenos trechos por dia e conseguir aproveitar toda a paisagem fantástica dessa região. Lembre-se que 200 km pode significar ficar de 5 a 6 horas dirigindo.

QUAL O ESTADO DA ESTRADA?

A Carretera Austral não é totalmente asfaltada. Longe disso. Nós rodamos quase 1.000 km por ela (927 km para ser mais exato) e encontramos asfalto em 532 km, ou 57% do caminho. O restante é rípio, e um rípio bem ruim em alguns pontos. Há sites chilenos que dizem que apenas 30% da estrada é asfaltada. No entanto, não foi isso que pudemos observar. Nesse ponto, nos surpreendeu, já que havia mais asfalto do que imaginávamos.

Contudo, o asfalto se concentra de Villa Cerro Castilho “pra cima”. De Cerro Castilho até Villa O’Higgins (470 km), quase não existe área asfaltada.

Em relação ao estado da via, há trechos que estão muito bons (geralmente os asfaltados), mas há trechos de rípio que estão em um estado bem ruim. Em vários momentos nós tivemos que escolher em qual buraco o Charlie ia cair. Quando era somente em 1 buraco ele saía no lucro. Quem passar pela região em época de seca deve encontrar melhores condições!

Há trechos de rípio que estão bons, mas são sempre os trechos ruins que ficam na lembrança.

E não pense que nos trechos de asfalto você poderá “tirar o atraso” e afundar o pé no acelerador! Muitos desses trechos asfaltados são muito sinuosos, cortam montanhas, tem muitas curvas… ou seja, mesmo no asfalto, não corra! Aproveite a paisagem, curta a viagem e fique em segurança.

Lembre-se que a chuva piora a qualidade do rípio. Mais buracos podem aparecer no solo, a pista fica mais escorregadia e a aventura aumenta!

Porém, obras estão sendo feitas na estrada. A maioria delas na parte norte da Carretera Austral, próximo de Puyuhuapi e Chaitén.

PRECISO DE UM CARRO 4x4?

Não é obrigatório um carro 4x4 para realizar o percurso. É recomendado, contudo, um carro um pouco mais alto, para evitar desgastes e possíveis problemas no caminho. Mas um carro sem tração fará o percurso sem maiores problemas. Encontramos vários carros sem tração pelo caminho.

Caso chova na região, você pode se complicar, pois há alguns trechos em obras e a chuva pode transformar o caminho em um verdadeiro lamaçal. Siga sempre com muita atenção ao volante e devagar que não terá problemas!

COMO É A INFRAESTRUTURA DOS POVOADOS? 

No geral, a infraestrutura dos povoados ao longo da Carretera Austral é boa. Quase todos os povoados tem posto de gasolina, borracharia e opções de hospedagem e alimentação (mesmo que poucas). Tudo muito simples, é claro.

Há algumas opções de hospedagem de luxo em partes da estrada, como em Puerto Bertrand, Puyuhuapi e La Junta, mas não é o comum das hospedagens na Carretera.

Nós usávamos o aplicativo iOverlander para buscar informações sobre os locais que iríamos passar a noite antes de seguirmos viagem. Encontramos dados importantes, seja com relação à hospedagem ou um local barato para comprar algo para comer!

Aliás, o iOverlander é ótimo para viajantes! Um app essencial para quem quer se aventurar pelo mundo! Falamos um pouco mais sobre ele e outros aplicativos que utilizamos em nossa viagem nesse post aqui.

Prepare o bolso, pois as hospedagens não são das mais baratas, apesar de serem bem simples. Nós fomos fora de temporada, fazia – MUITO frio e estava chovendo – e foi bem difícil encontrar algo por menos de R$ 100,00/diária. Em um dos povoados, a dona da pousada deixou a gente ficar em um quarto para 1 pessoa, desde que a gente coubesse na cama de solteiro. Tudo para economizar.

Carretera Austral Postos de Combustivel

Quanto a postos de combustível, não tivemos nenhum problema! E acredito que você não terá também, desde que se planejar, é claro!

Na imagem ao lado incluímos um mapa que mostra as principais cidades/vilas que possuem postos de combustível COPEC, inclusive no mapa tem até a distância de uma cidade pra outra. Clique no mapa para ampliar a foto e depois volta aqui no post pra continuar vendo as dicas 🙂 Assim ficou fácil, né?

Os preços do combustível são, naturalmente, mais altos que os encontrados em outras regiões do país. Chegamos a encontrar Diesel por 680 pesos chilenos/litro, bem acima do praticado em outras cidades! Você pode conferir os preços do combustível pelos países que passamos neste post aqui.

Uma dica valiosa: abasteça em Coyhaique! Foi lá que encontramos o melhor preço de combustível pela estrada (515 pesos/litro de Diesel). Coyhaique é a maior cidade da Carretera Austral, com mais de 55 mil habitantes. Para os viajantes que passam dias cruzando apenas pequenos povoados, esse lugar é praticamente o paraíso. Aproveite e abasteça a dispensa de comida em um dos supermercados grandes da cidade, com certeza os preços serão melhores que os das pequenas vilas!

Resumindo, apesar dos preços serem um pouco mais altos, vai ser difícil você ficar sem combustível, comida ou hospedagem em seu trajeto pela Carretera Austral, fique tranquilo!

O TRAJETO É TODO FEITO POR TERRA?

Caso você cruze a Carretera Austral por completo, você não conseguirá evitar as balsas. Mas fique tranquilo, vamos dar todos os detalhes aqui.

Vamos explicar o trajeto Norte – Sul (ou seja, de Puerto Montt-Villa O’Higgins), mas caso você venha pelo sul e seu destino final seja Puerto Montt, é só inverter a ordem das balsas 😉

BALSA 1 – CALETA LA ARENA ATÉ CALETA PUELCH

A balsa está localizada 45 km ao sul de Puerto Montt e não precisa de reserva prévia. Há saídas a cada 30 minutos – exceto alguns horários de madrugada – e a viagem também demora 30 minutos. O embarque é por ordem de chegada, portanto, na alta temporada sugiro que chegue com um pouco de antecedência.

O pagamento é feito dentro da balsa mesmo. O preço para carros é 9.800 pesos chilenos (algo como R$ 50,00) e o motorista e passageiros do carro não pagam taxa adicional.

 

Imagem: Textos e horários da primeira balsa – Clique na foto para ampliar

Carretera Austral Balsa Horarios

BALSA 2 – HORNOPIRÉN ATÉ LEPTEPU

Essa travessia é a mais cansativa e demorada. A balsa leva de 3 horas e meia a 4 horas para percorrer 33 milhas náuticas entre Hornopirén – considerada a “porta norte da Carretera Austral” – e Leptepu. Não se preocupe que você não vai precisar ficar dentro do seu carro por todo esse tempo. A balsa possui uma grande área com muitas mesas, poltronas, sofás, banheiros e até uma cafeteria (com preços altos, é claro) onde são vendidas comidas e bebidas. Muitos chilenos descem de seus carros com sacolas de comidas e armam verdadeiros banquetes nas mesas. Sugiro que façam o mesmo 🙂

Esse trajeto (assim como o da 3ª balsa) é pago e deve ser reservado com antecedência pelo site da transportadora ou pessoalmente nas agências da empresa, que se chama Transportes Austral. Você pode visitar o site deles aqui.

A partir de Março/2017, há apenas uma saída diária de Hornopirén, as 10:30 da manhã. No verão, contudo, podem haver mais horários. Informe-se antes de realizar as travessias.

BALSA 3 – FIORDO LARGO ATÉ CALETA GONZALO

Após desembarcar em Leptepu você andará 10 km de rípio até chegar em Fiordo Largo, local de onde zarpa a balsa com destino a Caleta Gonzalo. São mais 45 minutos para percorrer as 5 milhas náuticas pelo Fiordo Reñihue. A balsa também conta com uma área para os passageiros descansarem, com sofás, algumas mesas e banheiros.

Finalmente, de Caleta Gonzalo você segue 60 km, aproximadamente, até chegar em Chaitén e descansar depois de muitas horas na estrada.

O horário de saída da 3ª balsa  é calculado para que todos os que fizeram a travessia da 2ª balsa tenham tempo suficiente para atravessar o trecho de 10km de rípio e embarcar para a última travessia. Não precisa correr, não tem muito pra onde fugir 😛

 

Imagem – Trajetos Segunda e Terceira Balsa – Clique na foto para ampliar

Carretera Austral Mapa Balsa 2

ATENÇÃO

A passagem a ser comprada deve abranger o trajeto “Hornopirén-Caleta Gonzalo” (ou ao contrário, se você vier pelo sentido Sul-Norte). Essa mesma passagem dá direito a 2ª e a 3ª balsa. Mencionamos isso pois quase nos confundimos quando fomos comprar pelo site. Existe a opção de comprar, separadamente, a 2ª e 3ª balsa. Paga-se um valor maior se fizer dessa maneira. Pelo site da transportadora, selecione “Origem: Hornopirén” e “Destino: Caleta Gonzalo” (ou ao contrário caso seu trajeto seja do sul para o norte, claro). No final das contas, o site estava com problemas na parte de inserir os dados para pagamento. Fomos até a agência da empresa e compramos por lá mesmo, muito mais fácil e mais rápido. Pagamos 38.500 pesos chilenos (aproximadamente R$192,00) para os trajetos da 2ª e 3ª balsa.

Caso você se programe corretamente, as 3 travessias podem ser feitas todas no mesmo dia. Será cansativo e você finalizará todas as travessias já durante a noite, muito provavelmente. Mas é possível.

BALSA 4 – PUERTO YUNGAY ATÉ RIO BRAVO

Bem mais ao sul, próximo ao fim da Carretera Austral há outro trecho de balsa, pouco mencionado em sites que tratam do assunto. O trecho de 9 km que liga Puerto Yungay a Rio Bravo leva, aproximadamente, 30 minutos e a balsa também conta com uma área interna para os passageiros descansarem.

O trajeto é gratuito e acontece algumas vezes por dia. Na temporada baixa – de abril a outubro – as saídas, no sentido Puerto Yungay-Rio Bravo são às 12 e às 15 horas (e às  10:00 as segundas, quintas e sábados). Recomendamos sempre checar o site da transportadora para confirmar se as informações continuam as mesmas. A empresa que realiza essa travessia é a Somarco e o site deles pode ser acessado aqui.

O embarque é feito por ordem de chegada e há pouco espaço para carros. Portanto, procure chegar com antecedência, ou terá que aguardar a próxima balsa (que poderá ser somente no próximo dia).

É POSSÍVEL FUGIR DAS BALSAS?

Sim, mas depende por onde você “entra” na estrada. Explico.

Caso você comece sua aventura por Puerto Montt (ou seja, percorra a Carretera Austral no sentido Norte-Sul) você OBRIGATORIAMENTE passará por trechos com travessia de balsa (no mínimo as 3 primeiras balsas descritas anteriormente). A 4ª e última balsa pode ser evitada caso você não percorra a estrada em sua totalidade e saia pela Argentina antes de chegar em Puerto Yungay.

Por outro lado, caso você ingresse na Carrera Austral pelo sul – por Chile Chico, por exemplo – você pode evitar todas as balsas e rodar somente por terra. Para isso, saia da estrada no cruzamento com a CH-235, sentido Futaleufú e de lá siga para a Argentina. Saiba, porém, que você deixará de explorar muitos trechos da Carretera Austral.

Ficou confuso? Não se preocupe, nós também estávamos! São muitos nomes e trechos. Mas fique tranquilo que no final tudo dá certo 🙂

Devo admitir que, no momento que estávamos desenhando o roteiro da viagem, passar por essa estrada não estava em nossos planos. A idéia era seguir pelo lado argentino, pela também famosa Ruta 40. Contudo, após muita pesquisa e leitura, decidimos explorar essa região tão isolada e incrível do país andino.

Hoje não nos arrependemos de nem um minuto que passamos naqueles trechos de pouco asfalto e muitos buracos. As paisagens que vimos e as sensações que tivemos vão ficar por muito tempo em nossas memórias. É um lugar realmente muito diferente de tudo que já presenciamos.

E aí? Ficou com mais alguma dúvida da Carretera Austral? Mande sua pergunta pra gente!

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Carretera Austral
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Ricardo Breda

Com 28 anos, Ricardo já visitou 40 países e não está nem um pouco satisfeito; seu objetivo é conhecer todos os países do mundo e o Memórias de Mochila dará uma boa ajuda pra isso! Graduado em Administração com ênfase em Comércio Exterior pelo Mackenzie, deixa para trás uma carreira no mercado financeiro para satisfazer sua inquietude e curiosidade com relação a novas culturas.

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